domingo, 19 de dezembro de 2010

Um presépio, um Natal (I)

Presépio com figuras da Nazaré (Exposição de presépios de Gaeiras, Dez.2009)

Luísa Borges, "A Senhora da Fonte"

“Há pessoas tão secretas como os lugares escondidos desta história”. Esta é uma das primeiras afirmações do livro A Senhora da Fonte (Lisboa: Chiado Editora, 2010), de Luísa Borges, verdade que logo nos remete para o mundo da fantasia e do mistério, do fantástico, levando o leitor pelas veredas de uma narrativa que vai sendo guiada por temas clássicos como a luta entre o bem e o mal, por referências a histórias locais, por um grupo de personagens que fazem lembrar as aventuras em grupo, por uma entrada na história sem tempo.
Desde início nos apercebemos de que estamos a ser levados a pactuar com esse reino da fantasia, assim como quem se deixa levar pelas mágicas palavras de “era uma vez”. A diferença é que, nesta história, o tempo é o de 2007, no Verão, bem próximo, portanto, a contrastar com o longínquo calendário do “era uma vez”... Mas o carro em que as crianças viajam com a mãe vai entrando “para dentro do vale e da tarde” e, pouco depois, uma outra viatura corre “cada vez mais para dentro do lusco-fusco”. De entradas se fala na geografia, no tempo e num ambiente em que o mundo pode adquirir outras cores, outras tonalidades, tal como, já quase no final do livro, quando procuram Bernardo, os amigos vão “entrando, um após outro, por baixo do pórtico escuro e desaparecem nas entranhas da terra”.
Por outro lado, quando está a caminho da Arrábida, o jovem Bernardo, espreitando pelo vidro do automóvel em circulação, vai chamando a atenção à irmã, dizendo-lhe para olhar as árvores, que “estão a falar”, figura excelente para a animação da natureza, numa evocação de um país das maravilhas que poderia vir a ser o da estadia dos dois irmãos no colégio por um período de tempo indeterminado… quer dizer, um tempo de preparação até que o pai de Bernardo e de Catarina, militar, fosse resgatado depois de ter sido dado como desaparecido algures no Iraque, género de prémio para os filhos e para a família e marca que poria fim ao tempo necessário para haver a história.
Cada situação que vai acontecendo nesta aventura vai tendo o seu adensamento de mistério: de cada vez que as duas crianças são apresentadas a alguém, logo lhes é dito que já eram esperadas há muito tempo, assim se lhes antevendo uma missão; a casa da avó Henrieta tem “jardins misteriosos” e uma “campainha de outras eras”; a própria Henrieta é uma personagem antipática, severa, misteriosa e inacessível (como convém que haja numa história de aventuras e de mistério), vivendo na sua anacronia – fazia-se deslocar num carro “há muito extinto”, dos anos 30, mas “a grande velocidade” –, parecendo dar a conhecer as várias peças de um puzzle de que se desconhece o desenho final. O maior mistério é o que fica para resolver na história e constitui a trama da aventura: descobrir o paradeiro de Bernardo, que desaparecera inesperadamente porque – sabemo-lo nós, leitores – se deixara enlear numa teia de fascínio até ser absorvido num pântano que constituía um destino proibido.
Catarina e Bernardo, irmãos, sofrendo a ausência temporária dos pais (a mãe partira para o Oriente, em demanda do marido), vão descobrindo um mundo novo de relações e de histórias, numa viagem em que a imaginação muito ganha e em que o mundo é traçado a partir da imaginação, como se pode ver no raciocínio que Bernardo faz ao ver o carro da avó – “era igualzinho ao modelo miniatura da sua colecção” – isto é, o real é igual ao imaginário, ao brinquedo, ponto de partida para conhecer o mundo. Mas esta permanência no colégio é também a responsável por os levar até ao inferno ou até ao tempo dos dinossauros, ao conhecimento do mal, do sofrimento e da morte, a um passo de uma viagem na barca de Caronte, mas tendo obtido a salvação porque viajaram num barco remado por um poeta.
Ao longo de todas as experiências que essa vinda para um colégio, algures encostado à Arrábida, em Azeitão, lhes proporcionou, algumas vão sendo mais marcantes, sobretudo o encontro com o Cristóvão, o homem do ferro-velho, fumador de um cachimbo de porcelana que se passeava em charrete puxada por éguas, personagem saída das velharias, contador de histórias de antanho, uma outra forma de garantir a fantasia. É ele que vai introduzir a história de Hildebrando, o comerciante-navegador que povoa a lenda da Arrábida, já recriada por Henrique Lopes de Mendonça, por Miguel Caleiro ou por Carlos Alberto Ferreira Júnior ou, recuando mais, em antigas crónicas. E, a propósito desta entrada, é interessante registar o cruzamento da fantasia com a realidade, porque o velho Cristóvão conhecera esta lenda “através do seu conhecido Carlos Alberto Ferreira Júnior”, isto é, mistura-se a personagem de ficção Cristóvão com a figura local de Azeitão que foi Carlos Alberto, escritor e personalidade ligada ao movimento associativo, sobre quem já passou o centenário do nascimento.
A propósito de leituras, esta narrativa deixa-se levar também pelo confronto entre dois livros – um, dos sonhos; outro, de borboletas. Nenhum deles é, contudo, um livro inócuo e a luta pelo sucesso das personagens vai passar pela oposição entre os dois livros, uma vez que o dos sonhos é visto como uma preciosidade para ajudar, só o conseguindo ler quem esteja purificado, porque ele se torna quase profético e revelador, ao passo que o volume que contém as imagens das borboletas foi o responsável pelo acto de feitiçaria que levou Bernardo até muito perto da morte. A opção por um ou outro livro e respectivas consequências e a capacidade de as personagens os poderem ler é algo para que a narrativa também chama a atenção, como surge explícito quando a professora Lia recomenda a Catarina: “Cuidado com o que leres nos livros.” No extremo, um livro pode conduzir à salvação ou à condenação.
A história contada em A Senhora da Fonte apresenta vários pontos de contacto com a região azeitonense, não só pelas descrições que são feitas da serra da Arrábida, vista a partir da vila, mas também pela lenda de Hildebrando, pela presença dos golfinhos roazes e ainda pela invocação de Dona Constança, que por estas terras terá andado com o seu Pedro no que foi a Quinta da Nogueira.
Mas a ligação mais intensa surge através do poeta, figura algo mítica e fantasmática que funciona como adjuvante do grupo de jovens aventureiros na busca de Bernardo. Vários versos de Sebastião da Gama vão intercalando a narrativa, normalmente para funcionarem como chave de revelação, característica que bem assenta na ideia de poeta. A imagem que do poeta surge é a identificação com a figura de Sebastião da Gama, ainda que isso não seja explicitado, mas apenas sugerido por um adereço como a boina ou pelo permanente ar de simpatia e pelo sorriso ou por a personagem estar a dizer versos que têm como autor o poeta de Azeitão, assim o caracterizando. Interessante se torna verificar que é através da orientação dada pelo poeta que os jovens da história se salvam, ora porque ele se torna presente quando menos se espera, ora porque é ele quem conduz o barco que afasta o grupo de todos os perigos. Esta ideia de ser um poeta a salvar as crianças é forte nesta história, num quase hino de exaltação à poesia, verdadeiro “salvo-conduto” que o remador poeta vê renovado quase no final da narrativa, depois de uma viagem “debaixo da terra, dentro da montanha”, navegando num “rio secreto”.
Nesta viagem, em parte conduzida pela força do poeta e em parte bem sucedida pela capacidade de um ser alado com o simbólico nome de Archangel ter destruído os répteis transportadores do mal, o tempo foi marcado pela duração necessária para salvar duas personagens – Bernardo, desencarcerado do pântano e do mundo de vermes que dele se tentava apoderar, e o pai, o tenente Nogueira, encontrado no Iraque – e para restituir ao colégio e às outras personagens o bom ambiente de que necessitavam.
Livro que nos mergulha na fantasia, pois, e que transforma o final em festa, depois de nos levar às catacumbas do sofrimento. E, no momento em que a história e o livro se encerram, o leitor vê que o Poeta parte “sozinho, no bote”. E, com o narrador, apetece perguntar: para onde irá? Afinal, uma outra maneira de dizer que a história chegou ao fim e que acontece a saída do mundo da fantasia, pelo menos até ao momento em que o salvo-conduto do poeta sirva novamente para nos abrir as portas do sonho…
[Na apresentação do livro, no Museu Sebastião da Gama, ontem.]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Manuel Medeiros, "honoris causa"

A Manuel Medeiros foi atribuído, na tarde de hoje, o título de “doutor honoris causa” pela UNISETI de Setúbal. Por razões profissionais, não pude estar presente e não sei o que lá foi dito. Não é já a primeira vez que Manuel Medeiros tem homenagem em Setúbal, felizmente. Mas, para lá das homenagens de pompa e circunstância que as instituições lhe vão promovendo, creio que o melhor reconhecimento devido a este açoriano é o da visita ao seu recanto de trabalho, ninho de saber(es), ponto de encontro com o universo, a livraria Culsete, em Setúbal.
Se digo isto, é porque, já antes de ter vindo viver para Setúbal, frequentava o recanto deste livreiro, que agora teima em ser o Livreiro Velho. Por lá tenho continuado a passar e a descobrir. Pessoas, livros, ideias, momentos de revelação. Porquê? Porque o Manuel Medeiros faz de cada livro uma festa, porque ele nos leva pelo meio dos livros como quem passeia numa biblioteca e não como quem poderia vender salsichas ou automóveis. Porque na Culsete conheci muita gente, convivi com muita outra, mantive conversas com amigos, participei em debates, assisti a apresentações, aprendi. Porque tanto me posso cruzar com a poesia como com o ensaio, com a ficção como com a divulgação, com as enciclopédias como com os fait-divers. Porque o Manuel Medeiros vai cumprimentando os livros como quem se cruza com as palavras pelo passeio, vai falando dos autores como se estivéssemos em tertúlia no café mais próximo, vai levando os visitantes pelas teias dos conteúdos, muito mais do que pelos fascínios do material, vai separando aquilo que é papel do que é um livro, vai escrevendo a sua história e vai abrindo as portas das inscrições e da memória. Já lá levei outros, já lá levei alunos. Continuo a sentir o fascínio da entrada pelos livros a partir de uma livraria como a do Manuel Medeiros, em grande parte devido ao cicerone que ele teima ser.
É excesso isto? Não, de todo. Apenas reconhecimento por um trabalho criterioso, por uma prestação cultural que muito dignifica Setúbal.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sebastião Fortuna na paleta da vida

No domingo, encerrou a exposição de pintura de Sebastião Fortuna, que esteve patente na igreja de S. João, em Palmela. Não estive presente no encerramento, mas visitei-a no dia anterior, em que pude aproveitar uma viagem guiada por todos os quadros através do dizer e do sonho do pintor, privilégio trazido por uma tarde fria, de poucas saídas e com outras opções.
Conheço o Sebastião Fortuna há quase três décadas e sempre o vi como o homem que se enreda nos sonhos, nas histórias… e na tentativa de concretização de tudo o que idealiza. Cada um dos quadros expostos foi pretexto de uma narrativa, indo muito para lá do contar como ou porque nasceu; foi, antes, uma motivação para deambular pelas palavras, pelas ideias e pelos símbolos, assim como quem governa o seu barco no rio, construindo a viagem e tomando conta dela, ou como quem idealiza espaços ou tempos, vidas.
Cada título de um quadro de Sebastião Fortuna é a entrada para um poema. Ou é um poema mesmo que ele vai desfiando enquanto fala dos seus pintares. Longe dos títulos abstractos e inóquos, as palavras que Fortuna escolhe para denominar (e explorar ou explicar) as suas telas comprometem-se com a simplicidade e com o sentir, obrigando a leituras plurais e ao encontro com valores. Foi por isso que tive de lhe dizer que ele não poderia passar sem registar esses poemas por escrito. “Pois, eu sei…” E a gente vai esperando. E, quando se deixou fotografar junto ao quadro “Eu gosto das piteiras”, comentou: “Como não hei-de gostar? Está a ver? Elas são altas, verticais, seguras… Como se deve ser na vida… Eu gosto de piteiras!”

domingo, 5 de dezembro de 2010

Francisco Moniz Borba põe o Museu de Setúbal em livro

“Pela minha parte, sinto-me feliz por, de algum modo, me ter sido dado contribuir para essa realidade e poder dizer à terra onde nasci: Aqui está o Museu!” Foi com estas palavras que, em Janeiro de 1961, João Botelho Moniz Borba concluiu o seu discurso na inauguração do Museu de Setúbal, velha aspiração local. A partir de 21 de Junho desse ano, este homem, autodidacta em museologia, dirigiu o Museu por um período de quase 17 anos, até ao seu falecimento, em 12 de Dezembro de 1977.
A história surge contada pelo filho deste fundador, Francisco Moniz Borba, na obra recentemente apresentada ao público Museu de Setúbal e o seu fundador João Botelho Moniz Borba (Setúbal: ed. Autor, 2010), álbum que traz para a memória o que foi o Museu de Setúbal durante esse tempo.
O volume, de quase três centenas de páginas, passa por uma biografia de João Borba (de onde não anda arredada a memória do seu autor, como quando lembra que o pai “contava em casa as pequenas descobertas” que ia fazendo), pela apresentação das instalações que o Museu utilizou (minuciosamente pensadas e esquematizadas pelo fundador), pela evocação da actividade do Museu (que, no período entre a sua abertura, em 1961, e 1977 – descontando cinco meses para obras –, teve uma média de 7187 visitantes anuais e uma assinalável diversidade de acções, entre as exposições – em que se contaram artistas como Fernando Santos, Álvaro Perdigão, Celestino Alves, Morgado de Setúbal, Lima de Freitas, entre muitos outros –, os concertos e as conferências), por divulgação de correspondência com João Borba, pela reprodução de quatro textos escritos por João Borba ("Fragmento de vitral da Igreja de Jesus de Setúbal", 1975; "Pequena notícia sobre o Museu de Setúbal e a conservação das suas obras de arte"; "A utilidade das gipsotecas – A gipsoteca do Museu de Setúbal", 1974; "Os sinos medievos da Igreja de Jesus de Setúbal", 1976) e por dados relativos ao património do Museu (incluindo a reprodução fotográfica das fichas individuais de cada peça de pintura religiosa, ourivesaria e gipsoteca, registos meticulosos de João Borba, com as características das obras, referências bibliográficas e história respectiva – proveniência e trânsito por exposições, restauros, etc.)
A obra contém ainda um dvd, em que, além da reprodução das fichas que figuram no livro, divulga o espólio para as áreas da escultura, pintura, desenho e gravura, reproduzindo as respectivas fichas elaboradas por João Borba. De fora ficaram as indicações do suporte livro, apesar de constar o registo da quantidade de items de cada uma das bibliotecas existentes no Museu – arquivo histórico da Misericórdia (1294 volumes), biblioteca Olga Moraes Sarmento (1654 volumes), biblioteca Garcia Perez (4629 volumes), biblioteca Correia da Costa (4264 volumes) e biblioteca do Museu (64 volumes).
A utilidade desta obra não se discute, tão oportuna ela é pelo que traz de volta aos setubalenses e aos estudiosos (haja em vista que o Museu de Setúbal tem, desde há anos, um reduzidíssimo espaço aberto ao público) e pelo contributo que constitui para a memória (seja pelas informações relativas a João Moniz Borba, seja pelos dados alusivos ao Museu, às pessoas que o ergueram e às peças que o constituíam).
Aos setubalenses (e aos visitantes da região) resta esperar que o Museu se reafirme e que a sua menção deixe de ser um eufemismo, ainda que explicado a partir do que (não) tem sido a conservação do Convento de Jesus que o alberga. A propósito, referindo-se à recuperação do Convento de Jesus, na edição do mensário sadino O Sul, de Outubro, o Secretário de Estado da Cultura Elísio Summavielle admitiu que, "dentro de dois a três anos, o monumento esteja utilizável"

sábado, 4 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares na "Ler"

No número de Dezembro da revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores, nº 97), a habitual entrevista dirigida por Carlos Vaz Marques foi buscar Gonçalo M. Tavares, português, escritor, 40 anos, 27 livros publicados. Os sublinhados que seguem são de lá, alfabeticamente ordenados pelo tema a que dizem respeito, mas não respeitando a ordem da conversa havida. Algumas das ideias aqui expressas apresentou-as o escritor, na tarde de hoje, no encontro com leitores que aconteceu na Biblioteca Municipal de Palmela.
Camões -Os Lusíadas é uma obra tão central na língua portuguesa que é quase natural passar por lá. Seria acaso ou má sorte um escritor hoje não se cruzar com Os Lusíadas. Há inúmeros autores que de uma forma ou de outra se cruzam com Camões. É como se fosse uma praça central de uma cidade. E é tão central que temos obrigatoriamente de passar por aí. Quando estamos fascinados por qualquer coisa é natural querermos fazer algo em redor disso.”
Leitor - “Os leitores, quando entram numa livraria, escolhem um livro. Mas também acho que o livro escolhe os leitores. É muito importante o livro escolher os leitores. Não ser uma espécie de livro fácil, no sentido de que vai com todos.”
Linguagem - “A lógica da linguagem não tem nada a ver com a lógica da matemática. (…) A linguagem é sempre uma coisa que não dá resto zero. As frases não dão resto zero. (…) Há sempre mais qualquer coisa que se pode dizer.”
Literatura e ética - “Toda a gente está em diálogo. Só não o está quem não deu atenção mínima ao passado. Há quem escreva como se não existisse memória. Mas a conservação da memória é aquilo que distingue o homem do animal. Ou seja, os animais não conservam as coisas que as gerações anteriores fizeram. Nesse aspecto, a memória é uma marca humana extraordinária – a ideia de fazer o novo mas ao mesmo tempo conservar o que vem de trás e dizer: ‘Sou herdeiro destes extraordinários escritores que nos antecederam.’ É quase questão de responsabilidade literária e ética.”
Livro - “Um livro sério é um livro que quer interferir com as pessoas. É um livro que não é para aquela semana. Há aqui um combate muito forte com o mundo em que nós estamos – que já não é semanal nem diário, que com a internet é ao segundo, uma coisa quase brutal. Um dos grandes combates actuais é o combate entre a actualidade e o importante. (…) Estamos num mundo em que a questão do actual e do importante se joga minuto a minuto. O que quer dizer que se o actual é ao minuto, o não-actual é logo passado um minuto. O problema é que esta lógica da velocidade é uma lógica opressora. A grande velocidade é muito violenta.”
Memória - “Há uma coisa importante que tem a ver com uma certa responsabilidade de quem escreve. É uma responsabilidade humana: a questão da conservação da memória. A única hipótese de conservarmos o antigo é tornarmos o antigo presente. Acho que isso é uma responsabilidade do escritor: dar a sua atenção ao clássico.”
Pensar - “A boa narrativa pensa, é evidente, e o bom pensamento conta histórias. Pensar não é mais do que contar uma história que é a história de uma ideia. (…) O pensamento é a história de uma ideia. Alguém que pensa está a ter uma ideia que desenvolve ao longo do tempo. Portanto, essa ideia é como se fosse uma personagem que se vai transformando. Tem até opositores. A personagem-ideia tem sempre um inimigo, que é o contra-argumento. Pensar é uma narrativa.”
Século XX - “O século XX é um século que nos está a dizer que temos de estar atentos.”
Tédio - “O tédio é uma sensação muito importante. Se eu tivesse de aconselhar alguma coisa para a escola, em geral, seria que se ensinasse a lidar com o tédio. (…) Tenho muito medo das pessoas que não sabem lidar com o tédio. As pessoas mais desesperadas são aquelas que estão sempre a fugir do tédio. O tédio é uma coisa central, base. O que é o tédio? É um momento de espera em que aparentemente nada está a acontecer. É uma sensação de inutilidade. Mas a vida tem uma percentagem enorme de momentos em que nós estamos à espera. Se não soubermos lidar com isso, estamos a desperdiçar uma matéria fundamental.”

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Rostos (146) - S. Francisco Xavier

Monumento a S. Francisco Xavier (padroeiro de Setúbal), em Setúbal, por Soares Branco
[Foto: Quaresma Rosa]

Em 21 de Abril de 2001, foi inaugurado em Setúbal um monumento a S.Francisco Xavier, no Jardim da Beira-Mar, ideia surgida em 1989, aquando do início das celebrações dos "500 Anos de Evangelização" sob o lema do "Encontro de Culturas".
O monumento, em que o santo surge virado para a cidade, empunhando o crucifixo, parecendo acabado de desembarcar, numa figura sugestiva de movimento, é constituído por duas partes: a estátua do padre jesuíta sobre pedestal e, destacado, um arco a sobrepor-se à imagem. Na base da estátua, estão registados os nomes dos seus autores (Soares Branco, o escultor, e Fernando Nunes, o serralheiro); no pedestal, existem as inscrições relativas à efeméride e aos patrocínios ("5 Séculos de Evangelização / Diocese de Setúbal e Câmara Municipal / 1989 - 2001", na parte fronteira, e a indicação dos apoios recebidos de empresas e instituições diversas no lado oposto - "Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, Fundação Belmiro de Azevedo, Caixa Geral de Depósitos, Fundação Oriente, Governo de Macau, Solisform, Sigma Coatings, Tecor e Navigomes"). O arco, assinado pelo escultor e por Lasindustria e Paulo Ferreira, apresenta um conjunto de dez inscrições que resumem a vida do homenageado: "Nasce em Javier a 7 de Abril de 1506", "Mestre em Artes e Teologia - Universidade de Paris - 1530", "1534 - Junta-se a S.Inácio de Loiola", "Entra em Portugal por Setúbal - 1537", "Viaja para a Índia - 1540", "Aporta a Goa em 1541", "1549 - Missionou no Japão e Molucas", "3-12-1552 - Morre em Sanchão às portas da China", "S.Francisco Xavier sepultado e venerado em Goa" e "Patrono da cidade de Setúbal desde 1722". No meio da ordem destas inscrições, sobre a cabeça da figura, há uma invocação ao Espírito Santo, a atestar a santidade do evocado.
Na base da estátua, aos pés do santo, existe um símbolo associado à biografia milagrosa de S.Francisco Xavier - o caranguejo que lhe terá recuperado o crucifixo perdido. A história ter-se-á passado por 1546, quando o missionário se dirigia para a ilha de Baranura, e foi relatada pelo seu biógrafo Daurignac: "Bem depressa se declarou uma tempestade tal que os próprios marinheiros ficaram aterrados. Francisco Xavier toma o seu crucifixo, inclina-se sobre a borda do barco para o mergulhar naquele mar em fúria... e o crucifixo escapa-lhe da mão! O santo apóstolo mostra-se em extremo consternado por aquela perda". Continua o narrador dizendo que, na manhã seguinte, já na ilha de destino, "o padre Xavier, acompanhado de Rodrigues, dirigia-se para o Bairro de Tálamo, seguindo pelo litoral, quando, depois de terem caminhado uns quinhentos passos, proximamente, viram sair do mar e vir para eles um caranguejo trazendo entre as suas garras, que tinha levantadas, o crucifixo de Francisco Xavier". O biógrafo deixou que a emoção tomasse conta do momento do encontro do animal com o santo: "O caranguejo vai direito ao Santo apóstolo e pára junto dele. Xavier ajoelha-se, prostra a fronte em terra, toma o seu amado crucifixo que lhe será dali em diante muito mais precioso, beija-o com todo o amor e reconhecimento de que está cheio o seu coração, e o caranguejo, voltando sobre os seus passos, desapareceu nas ondas". É o mesmo Daurignac que relata terem os índios descoberto, mais tarde, "um caranguejo duma espécie desconhecida, trazendo uma cruz latina sobre a concha", a que chamaram "caranguejo de S.Francisco Xavier".

Que nomes têm estas coisas? (Ou: é preciso não acreditar!)

Há tempos, dando a entender que o fazia contrariado, o Primeiro-Ministro anunciou cortes nos salários e muitas mais medidas para combater a crise em Portugal. Foi a gente começando a acreditar que isto ia tocar a todos, que era necessário um esforço colectivo.
Mas a vida paralela tem continuado: ordenados que não serão tocados em empresas públicas (em nome da não fuga de quadros!!!), criação de mais uma empresa pública por parte do Estado para gerir as parcerias público-privadas (como é que essas parcerias têm sido geridas, como foram pensadas?), distribuição antecipada de dividendos em empresas para não haver taxas a valores de 2011 e, agora, o Governo Regional dos Açores a anunciar que vai criar um subsídio para compensar os cortes nos salários públicos que se situam entre os 1500 e os 2000 euros!
Não sei se estamos a ser bem informados, se vivemos todos no mesmo país, se os governantes de uns e de outros são os mesmos ou se falam a mesma língua. Estamos perante a oportunidade da política ou perante o oportunismo na política? Estamos perante que valores? Oscilo quanto ao nome a dar a tudo isto, mas lá que tem nome, tem! E não é coisa boa!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ilídio Gomes, "Promessa"

Quando se lê um título como este – Promessa (Setúbal: ed. Autor, 2010) –, o que se pode esperar dele? Promessa, palavra assim liberta e isolada, sem nenhum determinante a antecedê-la, sem nenhuma outra palavra a qualificá-la… Promessa, apenas.
Talvez a máxima que inaugura o livro nos acrescente alguma coisa – “uma promessa é a exaltação de um compromisso”. E, aqui, se nos afigura uma linha que ganha consistência no poema de abertura, com um título que é de designação: “Eis o livro”. A primeira coordenada dirige-se ao leitor – “Este o livro que ofereço a quem ama a poesia.” O poeta promete, pois, o seu produto, a sua poesia, e conta com um interlocutor à altura, o leitor amante ou amador de poesia. A segunda coordenada relaciona-se com o mundo do poeta, com o que pode ser o povoamento do seu livro – “revela o meu sentido ético, irreverente, das minhas ideias e estéticas próprias”. O poeta promete traçar a sua paisagem privada, materializar pela palavra o seu pensar, associado a um dizer de onde a estética não esteja arredia. No fundo, fazer com que as ideias permaneçam pela arte. E temos a terceira coordenada, mesmo no final deste poema – “Continuarei escrevendo, defendendo sempre / os valores supremos da nobre arte.”
Serão estes os três ingredientes da “promessa” com que Ilídio Gomes nos povoa estas páginas, albergadas à sombra da poesia. E são eles mesmos que vão fechar o livro, cerca de uma centena de páginas adiante, quando o poema “A vida” é assim rematado: “A vida afinal não é mais do que um livro / que se lê e sempre tem um fim.” Algo que quase nos diz que a promessa foi cumprida e a missão obteve o seu termo.
Estes pouco mais de oitenta poemas, em que a poesia várias vezes é definida – ou, pelo menos, invocada – pairam maioritariamente em torno de quatro eixos temáticos: o da perspectiva biográfica, o das aprendizagens, o do local e o da construção da poesia.
No primeiro grupo, podemos integrar textos que nos dizem os percursos do poeta no mapa da vida, num misto de desbravamento e de dádiva, de descoberta e de demanda: “A vida levou-me para lá do fim do mundo, / Naveguei por mares de águas ondulantes / Em busca de coisa nenhuma, / Rompendo a roda do tempo, / Alheio à vida, face à vida!” Este grupo de textos mais marcados pela biografia socorre-se por vezes da memória – “Vejo-me e revejo-me / No que era e sempre fui”. Mas há também a preocupação da imagem a deixar, seja para afirmar a imprecisão – “imagem controversa / quase sempre fugitivo de mim” –, seja para delinear a tela de um auto-retrato (que é, de resto, o título de um poema), em que estão patentes as marcas da solidão, da honestidade, da razão, da diferença, da tranquilidade, valores que sublinham a construção de um quase manifesto pessoal.
O segundo grupo, a que chamo das aprendizagens, integra estrofes ou versos que resultam como máximas ou orientações, normalmente relacionadas com o trajecto de vida. É assim que o leitor aprende que “não é onde se bifurcam os caminhos / que morrem as encruzilhadas” ou que “o homem raramente se lembra / que a vida floresce no alvor / de todas as madrugadas”. A ideia dos caminhos ganha consistência nas aprendizagens que Ilídio Gomes faz passar e, mais adiante, reaparece a imagem do itinerário: “Há sempre uma rota, um rumo / por mais duro que seja. / Há sempre dois caminhos / há sempre duas margens / em cada rio…” Saberes que se adquirem com a prática da vida, mas também com as marcas que os outros vão deixando, tal como é revelado num texto intitulado “Compromisso”, que outra coisa não é senão uma carta dirigida ao poeta Sebastião da Gama, a reforçar a promessa do cumprimento, o compromisso com valores veiculados através do poeta da Arrábida – “Eu quero ser verdadeiro / eu quero afirmar hoje e sempre / que foi contigo que aprendi / que quanto mais se sonha / mais tarde se acorda do sonho” ou, noutro passo do mesmo poema, “Aprendi a não fugir do medo, / que com coragem se chega ao fim, / que é a coragem que anima a força / e tempera o cansaço.”
Quanto ao terceiro eixo, relacionado com o local, podemos dizer este livro de Ilídio Gomes se compromete também com a região de Setúbal. Poemas há que projectam a paisagem sadina nos versos de Promessa, num quase alargar de horizontes. Entre os motivos possíveis, o poeta elege os seguintes: a rua, “tão estreitinha”, “maneirinha”, com “janelas pequeninas / todas viradas ao mar”, constituindo-se como ponto de partida para a descoberta do universo, por um lado, e da singularidade do bairro, por outro; o rio, Sado de seu nome, ora avistado à distância, a partir da janela, matizado por tonalidades várias do azul e do verde, ora tornado elemento que afaga os pés do poeta e se manifesta em “murmúrio lânguido”, perante uma cidade “por dentro cheia de luz, / por fora feita de mar (…) /onde o sol se acolhe / em cada asa de gaivota”; resta a serra, brevemente evocada como “serra-mãe”, a mostrar ligação a outros poemas e a outro poeta, paraíso de melodias e de doces entardeceres. Este compromisso do livro com a região de Setúbal é ainda visível em duas fotografias alusivas a conhecidas paisagens setubalenses – o palácio da Comenda, junto ao Sado, e a Doca dos Pescadores, na Anunciada – introduzidas no livro, relacionando-se com o conteúdo apenas por esta dimensão do local.
Finalmente, o quarto conjunto, aquele que se relaciona com a escrita da poesia, muito recorrente, com contínuas entradas nos versos, mesmo que apenas por referência aos momentos em que o poeta se encontra com a poesia. O tempo entre o “crepúsculo” e a “madrugada” é o ideal para o poeta, uma viagem de escrita pela “noite”, que chega a ser “infinitamente bela”, sendo mesmo a escolha dos momentos crepusculares orientada para um acto tão fundamental quanto o do anúncio da morte – “Quando eu morrer / não anunciem a morte / esperem um instante até que anoiteça”. Estas preferências nocturnas para a visita da poesia completam-se com o necessário “silêncio” ou com a “solidão”, determinantes para os instantes de inquietação que a poesia é.
E voltemos à promessa, aquela que Ilídio Gomes puxa para título, uma promessa de palavras construída. Vive o poeta nas suas negruras e solidões, acariciando o poema, escrevendo pela noite fora, num acto de exaltação de um compromisso com a escrita para “dar luz à palavra”, como refere no poema intitulado “Escrever”. O essencial da promessa é essa transformação do sentir em poesia, da noite na luz das palavras, míticos elementos iluminados. Esse encontro com o verbo é ainda destacado numa nota posfacial que Ilídio Gomes conclui com uma outra máxima: “Entendo que escrever é dar luz ao mundo e a poesia, arte milenar, é ela própria um clarão de luz”.
Assim se executa a promessa, assim se conclui o livro, numa missão que põe a descoberto a essência, o mais íntimo que é permitido. Uma missão de luz, em conclusão.
[Na apresentação da obra, em 27 de Novembro de 2010, na Biblioteca Municipal de Setúbal.]