quarta-feira, 31 de março de 2010
A traição do condicional
Nas notícias da SIC, vi a reportagem sobre as duas jovens licenciadas em Direito que, de Braga, rumaram a Lisboa, com 40 quilos de livros, para um exame exigido pela Ordem dos Advogados. Mas, à chegada à capital, souberam que o Tribunal Administrativo lhes dera razão, levando a Ordem a admitir as alunas sem fazerem exame de admissão ao estágio. Ficaram contentes, como é óbvio, porque a sua razão suplantava os costumes. Tudo bem até aqui. Mas quando a repórter perguntou a uma das jovens a opinião sobre esta decisão… “Foi feita justiça. Temos bastante pena dos colegas que estão neste momento a dirigir-se para as salas [para fazer o exame] porque a decisão deveria-se estender também a eles.”
No exame da Ordem não constam, provavelmente, provas sobre o uso da língua portuguesa. Mas é sabido que o Direito capricha no bom português, pelo menos no português correcto. O que ficariam a defesa ou a acusação ou o juiz ou o público a pensar perante um “deveria-se” saltado da advogada? Claro, há a desculpa do nervosismo… mas esse entra na construção frásica e nas marcas de oralidade, não na construção errada de formas verbais!
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"Resumo - A poesia em 2009", uma antologia do poetar português
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Quatro leitores ligados à poesia – por serem poetas ou por terem escrito sobre poesia – estão juntos na organização de uma antologia da poesia portuguesa publicada em 2009. São eles José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas. A ideia surgiu com o patrocínio da FNAC, albergando mais de centena e meia de páginas, sob o título Resumo – A poesia em 2009 (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010), por aqui passando 35 poetas portugueses contemporâneos com 115 poemas.
domingo, 28 de março de 2010
Alexandre Herculano nasceu há 200 anos
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Alexandre Herculano, por João Pedroso (1877)
Passam hoje 200 anos sobre o nascimento de Alexandre Herculano. Vale a pena evocá-lo por tudo aquilo que ele simbolizou como homem de cultura e de pensamento, é verdade. Mas também podemos lembrar Herculano, sobretudo nós que vivemos aqui ao pé da Arrábida, pelos seus laços a esta região, designadamente à serra da Arrábida.
É dele um dos mais românticos poemas sobre a serra, intitulado “A Arrábida”, escrito em 1830, com dedicatória para o liberal Rodrigo de Fonseca Magalhães (1787-1858) e depois inserido na obra A harpa do crente (1838). Nas suas 17 partes, este longo poema canta as maravilhas da Natureza, põe o homem e Deus frente a frente e exalta a liberdade. É desse texto que se transcreve uma estrofe:
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a Lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
A ligação de Alexandre Herculano a esta região foi já divulgada num pequeno ensaio de José Paulo Vaz, Herculano em Sesimbra – Subsídios para uma Biografia de Alexandre Herculano (Sesimbra: ed. Autor, 2005), e a Arrábida como motivo de um seu poema não é de estranhar, uma vez que, além de a serra poder configurar um cenário excelente para a estética romântica, Alexandre Herculano conhecia bem a região, pois foi arrendatário da Quinta do Calhariz por um período de quase uma década (1854-1863). Bulhão Pato, que era amigo e visita de Herculano, registou uma ida ao Calhariz em 1856, dando testemunho sobre o sentido prático e o humor do amigo (“A Casa da Ajuda de 1847 a 1851”. Memórias – I. Lisboa: Perspectivas e Realidades, 1986):
sexta-feira, 26 de março de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
António Matos Fortuna na toponímia

António Matos Fortuna já tem o seu nome registado na toponímia da terra que o viu nascer e que ele estudou como ninguém, dando a conhecer muitos dos seus segredos que a História tem albergado. O descerramento da placa toponímica ocorreu ao fim da tarde de ontem, numa cerimónia em que estiveram presentes familiares - o filho, Carlos Fortuna, o irmão, Isidoro Fortuna, a cunhada, Amália Fortuna -, amigos - vários, com destaque para o "Robim", aliás, Fernando Xavier Ferreira, um dos últimos tanoeiros da aldeia - e autarcas - a Presidente da Câmara de Palmela, Ana Teresa Vicente, os vereadores Álvaro Amaro, Adília Candeias e Adilo Lopes, o Presidente da Junta de Freguesia, Valentim Pinto. Foi um gesto simpático para a memória, claro! Ali mesmo, a olhar a serra que alberga "montanhões", a fitar o monumento ao ovelheiro. Ali mesmo, um nome que muitos outros nomes fez viver na memória das gentes!
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segunda-feira, 22 de março de 2010
"A violência da ignorância", por José Gil

José Gil. Visão: nº 889, 18.Março.2010.
Só hoje li o artigo “A violência da ignorância”, assinado por José Gil no último número da revista Visão. E não posso estar mais de acordo. E este texto deve ser lido, partilhado e meditado. Pelo que há, pelo que pode haver, pelo que tem de deixar de ser.
Há dias, um aluno do ensino superior dizia-me que, nas aulas, por vezes, dificilmente conseguem perceber o que dizem os professores, porque a conversa entre os alunos é em tal quantidade que os docentes se vêem obrigados a interromper o raciocínio e a aula para chamarem a atenção aos prevaricadores. Fiquei admirado, devo mesmo dizer: chocado. Que isso aconteça em níveis iniciais da escolaridade, ainda se compreende por causa da fragilidade da noção de responsabilidade e por causa de alguma dose de infantilidade. Que isso aconteça no ensino superior… Pensei, no momento, tratar-se de caso isolado. Dois ou três dias depois, conversava com um colega, mostrando o meu espanto por esta prática, em que os alunos do ensino superior se comportavam nas aulas de forma algo semelhante a muitos do ensino básico. Resposta dele: era verdade, muita gente se queixava, parecia que a onda se estava a generalizar na falta de respeito pelas aulas e estava a chegar ao universitário!
Percebe-se onde nos está a levar a onda de facilitismo. Viu-se (e ouviu-se, aliás) pela reacção dos deputados que bateram com as tampas dos computadores na Assembleia da República na semana passada, protestando contra o Presidente da Assembleia. Só não percebe quem não quer… É que as atitudes de desrespeito que tais alunos vão mantendo são não apenas desrespeito pelos professores mas também pela instituição escolar e ainda pelos colegas. Mas nada disto lhes diz seja o que for de importante. Infelizmente!
domingo, 21 de março de 2010
Hoje é o Dia Mundial da Poesia
Para este Dia Mundial da Poesia, António Osório escreveu a mensagem que reproduzo, divulgada pela Sociedade Portuguesa de Autores. Vale a pena lê-la, olhando o mundo em que estamos.
'A poesia é ainda possível'? Montale, no discurso em que recebeu o Prémio Nobel de 1975, interroga-se sobre o papel que pode ter 'a mais discreta das artes', num tempo em que 'o homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si próprio'. Montale deixou-nos uma palavra de esperança – para a poesia 'que surge quase por milagre e parece condensar toda uma época', 'para essa poesia não há morte possível…'.
Mais de 30 anos passaram. Não haverá agora maiores motivos para se ficar inquieto quanto ao futuro? O mundo actual não é bem pior que o de 1975? Os drogados, a sida, os alunos que desrespeitam e agridem os professores, a brutalização da Europa, a crueldade recíproca entre árabes e judeus, o terrorismo internacional, as infindáveis guerras, a crise financeira que se apossou do mundo, tudo isto não são formas tenebrosas de desprezar a vida e a poesia?
Por outro lado, avulta o triunfo da 'mediocracia' e dos best sellers do sexo (La vie sexuelle de Catherine M. chegou aos 350.000 exemplares em França e foi traduzida em vinte línguas, a portuguesa inclusive, e, note-se, era um editor respeitável, as Éditions du Seuil…).
Mutatis mutandi, o mesmo se passou e passa entre nós. Os livros dos 'ases' do futebol e da televisão, que colhem fortunas …
Em contrapartida, as edições de poesia sofrem acentuada diminuição das tiragens. Os jovens universitários lêem cada vez menos, trocando a poesia, quando a trocam, pela 'prosa' multimilionária…
Repare-se no que ocorre com a televisão, o deus ex machina. Quando aparece a poesia, e só muito raramente aparece, vem longe dos ditos 'horários nobres'. E as páginas literárias estão acabando tristemente, o que conta é o futebol e as revistas do coração…
Que fazer contra esta maré negra, contra esta ocultação da poesia?
Infelizmente, ninguém vê hoje o poeta como o via Platão – 'uma coisa leve, alada e sagrada'. Os poetas são agora uns estranhos párias, uma espécie de sonhadores que andam nas nuvens.
A defesa da poesia cabe aos poetas. Muito tem resistido, têm que resistir mais ainda.
A experiência diz-me que as leituras de poesia nas escolas e nas universidades, pelos próprios poetas, o diálogo que tem de estabelecer com os alunos seus ouvintes é uma das melhores formas de humanizar o poeta e de chamar o interesse para a poesia que faz. E não se devem limitar estas leituras ao próprio país… Graças a Eugénio Lisboa e Patrick Quillier, fui primeiro traduzido para inglês e francês – e em Inglaterra e em França convivi com centenas de alunos.
Não basta o esforço isolado do poeta. O confinamento ao seu próprio país também lhe é nefasto.
Há menos de 20 anos, quantos poetas portugueses contemporâneos eram conhecidos no Brasil ou em Espanha? Impõe-se a ajuda crescente da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, e do Instituto Camões.
Não tenhamos dúvida sobre a nossa poesia actual. Ángel Crespo, um dos maiores lusitanistas e grande poeta, na sua Antologia de Poesia Portuguesa escreveu que 'la poesía portuguesa contemporânea muestra … una variedad tal de enfoques e soluciones que hacem de ella una de las mas significativas de nuestro tiempo'.
Tão-pouco nos devemos confinar a uma ironia sarcástica contra um mundo cruel.
Sem dúvida, a poesia terá de ser um 'refúgio' contra a voragem tecnocrática, contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição da paisagem. Os seus são os valores da vida, a poesia é, como Croce sempre defendeu, a 'palavra cósmica', uma forma de não se submeter, mas de se indignar, de estar ao lado dos humilhados, uma afirmação humanista.
Retenhamos estas palavras de Rainer Maria Rilke, nas suas Cartas a um jovem Poeta: 'ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue'.
Teremos de ser como elas, que não põem em causa a própria seiva e que resistem às tempestades da Primavera. Contra o desprezo pela poesia, oponhamos a nossa perseverante defesa. E ofereçamos os nossos livros, com um gesto fraterno.
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sexta-feira, 19 de março de 2010
Ora aí estão os bons exemplos...
Vários deputados do PS fecharam com força os seus computadores em protesto contra as explicações do presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, sobre a natureza de serviço público daqueles computadores.
A notícia está na edição online do Público. Com atitudes destas, o que pode uma escola fazer para dizer que não é assim que se deve proceder? A gente vai andando e vai vendo que muitas das atitudes que atropelam o relacionamento social, inclusive nas escolas, têm uma origem: os exemplos. Se uma fatia do nosso Parlamento trata assim o Presidente da AR (que até é da área política dessa fatia) e trata assim um equipamento que é público, como se há-de exigir na escola que o respeito seja um valor, que a discordância não implique falta de respeito e que o equipamento deva ser tratado com respeito porque é pago e usado por todos?
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terça-feira, 16 de março de 2010
No mundo da educação...
"(...) Os sindicatos fariam melhor se centrassem as reivindicações em matérias que não trazem aumento de despesa. O combate à indisciplina, bullying e violência nas escolas não provoca aumento de despesa e gera o apoio e simpatia de largos sectores da população. O reforço da autoridade dos professores e a alteração ao estatuto do aluno são duas áreas, interligadas, que mereceriam mais atenção dos sindicatos. E as alterações ao actual modelo de gestão escolar também. (...)"
Quem o diz é Ramiro Marques. E subscrevo.
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