sábado, 30 de maio de 2015

Para a agenda: Olhar Setúbal



O mês de Junho, em Setúbal, começa com trabalhos de escrita, de fotografia e de artes visuais sob o título "Olhar Setúbal", numa organização da Casa da Poesia de Setúbal, com a colaboração de alunos de várias escolas - Secundária de Bocage, Secundária Sebastião da Gama e EB 2, 3 de Aranguez. De 1 a 5 de Junho, na Biblioteca Municipal de Setúbal. Para a agenda!

Para a agenda: a pintura de Maria d'Almeida



Maria d'Almeida com a "Sinfonia dos Sentidos", na Casa da Cultura, em Setúbal. Abre hoje, numa organização da Artiset. Para a agenda.

Para a agenda: Festival de Música de Setúbal 2015



Nas ruas, nas salas, no fim de semana, no final de Maio, em Setúbal... mais uma edição do Festival de Música de Setúbal. Um grande evento que enfeita a paisagem com sons. Até 31, domingo. O programa pode ser consultado aqui. Para a agenda.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Para a agenda: Virgínia Costa com mais poemas



O novo livro de poemas de Virgínia Costa, agora em coautoria com José Fialho, vai ser apresentado amanhã. A todos os tempos pertenço tem a chancela do Centro de Estudos Bocageanos. Em Palmela Gare, no Ludpark. Para a agenda!

sábado, 23 de maio de 2015

O paraíso, segundo Miguel Esteves Cardoso



O título é original: "Algumas verdades fofas e nuas sobre o paraíso que de modo algum precisavam de ser ditas". Outra forma de dizer que o paraíso está ao nosso alcance... assim o queiramos! E o início do texto é forte: O paraíso é a repetição esperada do desejo e inesperada do prazer. O paraíso nunca pode ser imaginado. Se é preciso imaginar é porque não se está lá. O paraíso pode ser sonhado mas nunca satisfaz porque, para ser um paraíso, é preciso consciência que se está lá, acordado, cheio de toda a sorte do mundo. (…) O paraíso é uma extrema felicidade passageira que promete poder voltar, talvez. Se nunca mais pudesse voltar, fosse de que forma fosse, seria uma tragédia.”
Quem o diz é Miguel Esteves Cardoso, na revista "Fugas" que acompanha o Público de hoje (pg. 3) e é dedicada à temática do paradisíaco. A ler! E a construir!

"Orpheu" - sublinhados no seu centenário



Em 1915, surgiu a revista Orpheu, sendo o primeiro número (alusivo aos meses de Janeiro a Março) dirigido por Luís de Montalvor e por Ronald de Carvalho e o segundo (referente ao trimestre de Abril a Junho) por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. O terceiro número não chegaria a ser publicado e só em 1984 apareceu a edição das respectivas “provas de página” (em fac-símile) pela mão da revista Nova Renascença e do seu director, José Augusto Seabra.
Neste ano de centenário, uma revisita às páginas da revista (cuja edição fac-similada dos dois números editados, em volumes autónomos, saiu recentemente com o diário Público) deixa-nos com a verdade de que a revista surpreende de cada vez que a ela se volta. Por aqui deixo uns sublinhados de Orpheu, pela ordem em que aparecem em dada um dos três números (a paginação da revista foi continuada de número para número, visando a organização em volume).

Eu – “Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.” (Mário de Sá-Carneiro. “7”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 14)
Eu – “Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade, quer passar / Em miragens de falsos horizontes / Um outro que eu não posso acorrentar…” (Mário de Sá-Carneiro. “Ângulo”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 15)
Tu – “Dentro da água dos teus olhos / minha alma treme como um lírio…” (Ronald de Carvalho. “Reflexos”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 25)
Mar – “Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 30)
Sentir – “Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!...” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 32)
Sonho – “O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 34)
Sonho – “Só vós sois feliz, porque acreditais no sonho…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 39)

Erro – “Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas sem suporte – Elegia”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 97)
Admiração – “Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 117)
Ideal (em arte) – “O indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ânsia de ideal que mais do que o ideal para nós vale, essa ânsia, esse desejo infinito e jamais satisfeito, deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim da arte pura!” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 119)
Arte – “Toda a obra de arte é a justificação de si própria.” (Nota da redacção sobre os poemas assinados por Violante de Cisneiros. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 122)
Vida – “A vida é só o Espaço / Que vai da própria Linha / À sombra dela num traço. // Quando a Morte for vizinha, / Fundidas no mesmo Espaço / Será tudo a mesma Linha.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 123)
Presente – “Só sensações são Presente, / Só nelas vive a Verdade.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 124)
Infância – “Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, / E ficar lá sempre, sempre cirança e sempre contente!” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 147)
Longe – “Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve – / Em parte nenhuma, graças a Deus.” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 149)
Eu – “Contemplo o meu destino em mim.” (Luís de Montalvor. “Narciso”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 156)

Vida – “Atapetemos a vida / Contra nós e contra o mundo.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Sete Canções de Declínio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 167).
Tempo – “Passar tempo é o meu fito, / Ideal que só me resta: / Pra mim não há melhor festa, / Nem mais nada acho bonito.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Cinco Horas”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 174).
Deus – “Olho o Tejo, e de tal arte / Que me esquece olhar olhando, / E súbito isto me bate / De encontro ao devaneando – / Que é ser rio, e correr? / O que é está-lo eu a ver? // Sinto de repente pouco, / Vácuo, o momento, o lugar. / Tudo de repente é oco – / Mesmo o meu estar a pensar. / Tudo – eu e o mundo em redor – / Fica mais que exterior. // Perde tudo o ser, ficar, / E do pensar se me some. / Fico sem poder ligar / Ser, ideia, alma de nome / a mim, à terra e aos céus… // E súbito encontro Deus.” (Fernando Pessoa. “Além Deus – Abismo”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 186).
Política – “E vós também, nojentos da Política / que explorais eleitos o Patriotismo! / Maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 200).
Jornalismo – “E vós também, pindéricos jornalistas / que fazeis cócegas e outras coisas / à opinião pública!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 201).
Portugal – “E ainda há quem faça propaganda disto: / a pátria onde Camões morreu de fome / e onde todos enchem a barriga de Camões!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Homem – “Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio / que Deus perdeu de vista o Adão de Barro / e com pena fez outro de bosta de boi / por lhe faltar o barro e a inspiração! / E enquanto este Adão dormia / os ratos roeram-lhe os miolos, / e das caganitas nasceu a Eva burguesa!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Vida – “Vivemos tão pouco / que ficamos sempre a meio caminho do Desejo.” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 205).
Natureza – “Ouve a Terra, escuta-A. / A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 209).
Sonho – “Os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos / Como outros quaisquer.” (C. Pacheco. “Para além doutro oceano”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 221).

domingo, 17 de maio de 2015

Caminhos da Memória - Rui Serodio, 78 anos


Rui Serodio faria hoje 78 anos. Conservo dele a imagem fina, aristocrática, artística, bem disposta, que sempre dele tive. Não lhe podendo dar os parabéns, tive de ouvi-lo. Aquela composição "Sounds of the mountain" é extraordinária. A Arrábida sentir-se-ia feliz. É toda uma peregrinação pela natureza e pelos sons. É uma obra genial. Foi assim que lembrei o Rui. Mais uma vez, obrigado.

sábado, 16 de maio de 2015

Caminhos da memória - Miguel de Castro



Passam hoje seis anos sobre a ida de Miguel de Castro, o poeta que na vida real tinha o nome de Jasmim Rodrigues da Silva. Fomos (somos) amigos. Da poesia, da conversa, da vida. Evoco-o pela amizade, pelos afectos comuns. E reproduzo um poema, "Carta a Sebastião da Gama", que teve a bondade de me dedicar em livro (Os Sonetos. Setúbal: Estuário Publicações, 2002, pg. 40). A vida é assim.

Para a agenda - Festa das Cruzes, em Alvarães



Acontece hoje e amanhã a Festa das Cruzes, em Alvarães (Viana do Castelo), uma das primeiras romarias alto-minhotas no calendário anual. Ponto alto é o desfile de andores, decorados com desenhos de temática religiosa ou local, coloridos com pétalas que, ao longo da semana, foram colocadas uma a uma, em trabalho colectivo em cada um dos lugares da freguesia. Além de poderem ser contemplados no desfile processional, o visitante pode ainda admirá-los em exposição que fica na igreja paroquial por alguns dias. A ver. Para a agenda!

Para a agenda - O Senhor do Bonfim em exposição



Está quase a acabar o tempo da exposição sobre o Senhor do Bonfim, patente na galeria da Casa da Baía, em Setúbal. É até 18 de Maio, mas merece o cuidado de uma visita. É o encontro com documentação fotográfica sobre a evolução do espaço e da dedicação e devoção que, em Setúbal, existe a esta imagem; é o registo de igual sentir da banda de lá do Atlântico, no Brasil, na Baía, para onde o capitão Teodósio Rodrigues de Faria levou a devoção em meados do século XVIII. Exposição modesta, mas feita com sentimento. A ver. Para a agenda deste fim de semana!

domingo, 10 de maio de 2015

"Que coisa são as nuvens", de José Tolentino Mendonça



Algumas crónicas (quase uma centena) de José Tolentino Mendonça que viram a luz no Expresso ao longo dos anos de 2013 e de 2014 estão agora ao alcance do leitor sob o título Que coisa são as nuvens (Lisboa: “Expresso”, 2015). Não é experiência nova do autor, uma vez que já em 2010 dera à estampa a colecção O Hipopótamo de Deus e outros textos (Lisboa: Assírio & Alvim), reunião de crónicas saídas nos “media”, entre os quais se contava também o semanário Expresso.
De crónicas não se pode esperar o que vá além de uma reflexão sobre algo do quotidiano; mas das crónicas se pode esperar tudo isso que é a reflexão, uma maneira de olhar o mundo, de o sentir, de nele reparar. O título da colectânea, vindo de uma filme de Pasolini (1967), alberga pensamentos que foram “uma iniciação, mesmo que imprevisível, à arte do espanto”; daí que o título do texto introdutório passe mesmo por essa virtude do olhar reforçada com o verbo “reparar”: “Para quem não tiver reparado”.
As crónicas de Tolentino Mendonça passam por esse espanto com as coisas do mundo e da vida, algo que nos surpreende e cativa, que se constrói sobre a estética, venha ela da escrita ou das outras artes, corra ela desde os sentimentos ou decorra dos acontecimentos, conflitue ela com as nossas  formas de vida ou abra-nos caminhos de descoberta.
Tanto é merecedor da crónica o bolo de bolacha como o bolo de arroz ou o chocolate, os prazeres experimentados como as descobertas, o sentido poético como as grandes obras. E o leitor vai saltando de Eugénio de Andrade para Ana Teresa Pereira, pensando sobre a morte ou sobre a poesia ou sobre os avós, entrando na pedagogia de Ruben Alves ou no fascínio de El Greco, convivendo com Van Gogh ou com José Saramago, ouvindo Rosenzweig ou Cesariny, pensando com Sophia ou com Simone Weil (dois dos nomes que emergem com mais frequência).
Estes pensares de Tolentino Mendonça vão ao encontro de formas de ser e de viver o mundo e a vida, congregando a espiritualidade inerente a cada gesto ou a cada momento, convidando a entradas por reflexões de outros, povoadas por citações exemplares do lido e do conhecido como se fossem ingrediente ou condimento. São textos curtos, que não vão além das duas páginas mas que nos deixam à porta das descobertas, no limiar do que é “reparar”, lá onde as nuvens mostram as suas diferenças e as suas consistências.
Uma boa iniciativa do Expresso, numa luta contra a efemeridade, em prol de momentos de encontro do leitor com o pensamento e com o mundo!

Sublinhados
Abraço – “Um abraço é uma hipótese de equilíbrio que a hospitalidade dos corpos é chamada a inventar. Qualquer abraço começará por ser uma coreografia instável. Se calhar, a primeira forma do abraço é só um agarrar-se para não cair. Pouco a pouco, o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou e surge como um lugar novo, um lugar que não existia no mundo e que juntos encontramos.”
Acabar – “O momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado, não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas condição irrecusável do próprio ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo. O inacabado liga-se, é verdade, com o vocabulário da vulnerabilidade, mas também com a experiência de reversibilidade e de reciprocidade.”
Amigo – “A banalização da palavra amigo produz uma incapacidade de compreender (e de viver) amizades verdadeiras.”
Arte – “Há três dimensões fundamentais (e esquecidas) na arte, companhia que importa recordar: a gratuidade, a aceitação e a capacidade de partilhar o silêncio.”
Casa – “As casas são uma máquina de habitar e desempenham um papel chave na construção da nossa experiência humana. Mas todas as casas falam, pela presença ou pela ausência, de outra coisa que está para lá delas. Falam disso que um humano é, matéria ao mesmo tempo sucinta e imensa, de fazer espanto. Falam do conhecimento que só é verdadeiro se alojar em si a consciência do que ignora hoje e ignorará até ao fim. Falam da luta pela sobrevivência, com a sua rudeza, a sua dor e tumulto, mas também da excedência que experimentamos, porque se a vida não transbordar não é vida. Falam da intimidade, aquém e além da pele. Falam do silêncio e da palavra, que umas vezes se contradizem e outras não. Falam do cumprido e do adiado, do sono e da vigília, do fraterno e do oposto, da ferida e do júbilo, da vida e da morte.”
Desgraça (íntima) – “A nossa cabeça de pessoas crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso reforça o meu estatuto. A verdade é que, se não tomarmos atenção, a desgraça íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos.”
Dinheiro – “O dinheiro não se fica a orientar apenas o ordenamento material da vida comum, mas contamina indelevelmente a dimensão imaterial da vida, as suas aspirações mais profundas. (…) Quer dizer, passou a ser um poderio, pois actua por si mesmo, detendo uma autonomia que só conhece como lei a sua. O dinheiro só tem respeito pelo dinheiro: nas relações que estabelece, tudo se compra e se vende, e é nessa espécie de delírio totalitário que ele prefere viver.”
Futuro – “Embora nos pese toda a indefinição ou os maus prognósticos, conservamos em relação ao futuro uma expectativa que nunca é completamente fechada. Quem sabe? – insistimos nós.”
Lentidão – “A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.”
Passado – “O passado é, em grande medida, um tempo confortável, mesmo quando nos esmaga. Provoca-nos o alívio, (…) está num lugar certo, mesmo se nos espaventa de tão completamente errado.”
Presente – “Do presente, da pressão do presente, da sua irrefutável factualidade, desatamos facilmente a escapar.”
Reparar – “Reparar introuz-nos por si só numa lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver parado, um revisar porventura mais minucioso do que o mero relance; é uma visão segunda, uma nova oportunidade concedida não apenas ao objecto, nem sequer apenas ao olhar, mas à própria visibilidade. [Reparar] põe também em prática uma reparação, um processo de restauro, de resgate, de justiça. Como se a quantidade de meios-olhares e sobrevoos que dedicamos às coisas fosse lesivo dessa ética que permanece em expectativa no encontro com cada olhar. Por isso, de certa forma, só quando reparamos começamos a ver.”
Saber – “Reconhecer que ‘não se sabe’ pode trazer desconforto, mas traz também saúde interior e criatividade.”
Silêncio – “Aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efectivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira.”
Simplicidade – “Nada nos pede mais trabalho e arte do que a simplicidade.”
Vida – “A vida é completamente artesanal. Não é possível reproduzi-la em série, nem encontra-la feita noutro lado. A vida requer a paciência do oleiro, que, para fazer um vaso que o satisfaça, faz duzentos só a treinar o gosto, a habilidade, a testar a sua ideia.”
Vida – “Privamo-nos a nós próprios do tempo necessário para colher o sabor, o silêncio ou as cintilações que temperam a vida. No atropelo ofegante a que nos entregamos há um crescente alheamento de nós próprios. Não lhe damos o estatuto de patologia, mas esta desertificação da vida interior disfarçada de eficácia o que é senão isso? As nossas sociedades medem infelizmente o seu progresso esquecendo, quando não obliterando, domínios da vida humana que não são mensuráveis e que têm a ver com a interioridade, a criação, o dom, a alegria, o sentido.”

Máximas em mínimas: António José da Silva, o Judeu




Depois de ler António José da Silva (1705-1739), o tal que foi vítima no mesmo auto-de-fé que acabou com a personagem Baltasar Sete-Sóis de Memorial do Convento, de José Saramago, o tal que foi cognominado "Judeu", ficam algumas verdades retidas a partir de Anfitrião, que tem o subtítulo de "Júpiter e Alcmena" (Col. “Clássicos Inquérito”, 14. Lisboa: Editorial Inquérito, s/d):

Amor – “Amor é como a Fénix que, para renascer mais belo, é preciso que, de quando em quando, se abrase nas chamas de um arrufo.”
Ausência – “Não há pior mal que o da ausência, pois ao mesmo tempo que acrescenta a saudade também acrescenta o tempo.”
Casamento – “Marido sem ser amante é o mesmo que corpo sem alma. Que importa que o matrimónio ligue o corpo se o amor não une as almas?”
Desejo – “Sempre a boca fala tarde quando madruga o desejo.”
Impossível – “Os impossíveis só se fizeram para os que verdadeiramente amam.”
Juiz – “Um juiz, para ser bom, há-de ser como um espelho: aço por dentro e cristal por fora. Aço por dentro para resistir aos golpes das paixões humanas e cristal por fora para resplandecer com virtudes.”

domingo, 3 de maio de 2015

Para a agenda - Recitais de Primavera - Trio "Clarinetes de Santiago"



O ciclo "Recitais de Primavera 2015", que se ouvirá em Palmela ao longo de Maio, abre no dia 9 com o trio "Clarinetes de Santiago" (Inês Nunes, Fábio Guerreiro e Fernando Pernas). Será o primeiro de quatro recitais que compõem o ciclo. Para ouvir na Igreja de Santiago (no Castelo), ao final da tarde. Para a agenda.

Para a agenda - Recitais de Primavera, em Palmela



Quatro dias em Maio para outros tantos recitais neste ciclo que é o de "Recitais de Primavera 2015". Em Palmela, na Igreja de Santiago (no Castelo), sempre ao final da tarde dos dias 9, 16, 17 e 24. Para a agenda.

Para a agenda - O quotidiano medieval em Portugal, na Culsete



A setubalense Ana Rodrigues Oliveira estará na Culsete em 9 de Maio para falar do seu livro O dia-a-dia em Portugal na Idade Média, pela primeira vez apresentado no país. Uma boa oportunidade para ler e para saber como foi o quotidiano que nos antecedeu. Para a agenda.